Esquecer Godot

Bem-vindo aqui! Este blog é meu. Quero-o. Para que as palavras não se esqueçam de mim. Para que o meu ser jamais se dilate, como que envergonhado. Se não esquecermos Godot, ele esquece-se de nós. Se me esquecer de mim, tudo me olvidará. Sê bem-vindo a mim.

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Saturday, December 10, 2005

O pequeno hamster

A Luísa construiu a sua própria guilhotina em miniatura. Algures na web encontrou um guia de montagem, em mais uma daquelas ocasiões em que o ser humano se despista da vida para se ocupar de ocupar a existência.
Há dias tinha-lhe sido oferecido um hamster branco de olhos avermelhados, um autêntico demónio com a capa da sensualidade, que mordia toda a gente. Luísa ainda não se aventurara a pegar no bicho. Por enquanto respeitava o seu território, cada macaco no seu galho. Especialmente após o incidente com o irmão mais novo que, ao se encher de coragem para dar algum carinho ao animal, sofrera um ataque ao dedo anelar da mão direita que lhe custara três pontos.
Passaram-se dias em que Luísa fora ganhando a confiança do demónio, com incursões gradativas à sua jaula para este ser subornado por pedaços de cenoura. Passados uns dez dias, o mostrengo já permitiu um leve toque de pele humana, mas sempre com a certeza duma recompensa, digamos, atenciosa. No dia seguinte, Luísa esqueceu-se da recompensa, e o bicho, desiludido e exasperado, resolveu vingar-se na ponta do nariz da nossa amiga, enquanto ela o acariciava com a face. Luísa prontamente o atirou ao chão e fugiu para a casa-de-banho para se tratar. Ia precisar de pontos. Voltou para o quarto. Fechou a porta. O pequeno roedor olhava-lhe. Nunca as suas antenas vibraram tanto. Nunca se sentiu com tamanha emoção, tamanha apreensão. Ainda tinha um pedaço de queijo em cima da cómoda. Usou-o para atrair o hamster à sua mão. O bicho, hipnotizado pela guloseima, ia comendo o queijinho nas mãos de Luísa que observava a sua mais recente criação. Luísa tinha a guilhotina e o queijo na mão. Meteu o demónio em posição e experimentou a sua pequena novidade. Zás! Um corte perfeito. Luísa abriu a porta do quarto e assobiou três vezes. Rapidamente surgiu do andar de baixo pelas escadas o seu animal doméstico com o rabo a abanar. Levou-o ao local do crime. O cão lambeu o sangue que jorrava e levou o corpo do bicho para outro lugar. Luísa foi ao congelador buscar gelado.

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